Amantes do cinema argentino, atenção. Além de ter aquela lente humanista e intimista característica, o que é mais bonito em Ninguém Está Olhando é o movimento que a diretora Julia Solomonoff consegue dar ao filme. Além do óbvio que é a mudança do protagonista Nico de Buenos Aires para Nova York, tem o movimento de afastamento emocional tão necessário para quem precisa se curar de uma frustração amorosa. Nico sai do seu país para poder sair dele mesmo, ver a situação à distância, confrontar-se com seus sentimentos para, então, poder seguir adiante.

Não é nada fácil fazer esse registro com simplicidade e elegância. Julia consegue. Nico é ator, tem um papel importante numa série que faz o maior sucesso na Argentina, ganha dinheiro, é famoso e reconhecido nas ruas, mas não tem outra escolha senão jogar tudo pra cima, trabalhar como babá em Nova York pra ganhar uma grana, enquanto não consegue um trabalho na televisão. O registro dessa passagem é doloroso, profundo e definitivo. Aos poucos vamos sabendo o que o levou aos Estados Unidos e a desconstrução vai sendo costurada com a delicadeza e a firmeza necessárias para a transformação do protagonista.

O título Ninguém Está Olhando remete a esse movimento de mascarar a realidade, agir por impulso mesmo que isso não renda frutos benéficos e positivos, mentir pra si mesmo. O bonito aqui é a escolha que Nico faz. Pela vida aberta, plena. Mas, antes, foi preciso o refúgio. Dele mesmo.

 

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