Festival de Berlim terminou com promessas de filmes bons filmes logo mais. Enquanto isso, dêem uma olhada em Instinto Materno, filme romeno que levou o Urso de Ouro em 2013. Forte e impactante – a cara do festival alemão.

Um homem rico atropela um garoto pobre e não presta socorro. Ele morre, o homem vai parar na delegacia, encurralado pelas evidências de culpa no cartório. Até que chega sua mãe. Munida de argumentos, usa a mais poderosa influência possível para livrá-lo da cadeia: a prepotência do tom e do olhar, como quem pergunta ao interlocutor “você sabe com quem está falando?”.

Circo armado, os problemas veem à tona. Cornelia é superprotetora e sufocante, já enfrenta uma relação ultradesgastada com o filho adulto e não entende a sua rejeição, que chega no limite quando rechaça a manipulação da mãe no caso do atropelamento. Rica, erudita e esnobe, parte integrante da elite romena pós-comunista que se julga acima das leis, Cornelia domina o filme, a empregada, o marido, o filho e a até então indomável nova. Manipula, melhor dizendo, numa forma de amor doentio e às avessas. O que o diretor Calin Peter Netzer constrói é uma linha de tensão permanente, num embate crescente da razão desmesurada que gera controle, mas que acaba ressaltando as fragilidades mais profundas.

Não há como não transpor a realidade da sociedade de Bucareste para a nossa – o poder corrupto, o tráfico de influências e favorecimentos, a troca de favores. Temos essa sensação permanente nas estruturas brasileiras. Cornelia representa a mentalidade que consome cultura erudita e circula na alta sociedade, mas não conhece a lei para todos e, pior, se acha acima dela.

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