Verão 1993 é basicamente um filme de observação. Frida fica órfã, vai morar com os tios, tem que se adaptar à nova família e viver seu luto até voltar a sorrir. Ou chorar. Frida tem 7 anos, Anna, sua nova irmã, tem 4. Dirigir crianças não é fácil; escalar crianças que transmitam sentimentos genuínos na tela, menos ainda. E isso é o que temos neste filme, o escolhido pela Espanha para concorrer ao Oscar em 2018.

Carla Simón faz um filme autobiográfico. Também perdeu seus pais quando criança. Nos anos 80, a Espanha ficou embriagada com a liberdade, o consumo de heroína foi nas alturas e, nos anos 90, muita gente tinha AIDS. Cerca de 21 mil pessoas faleceram da doença no começo da década. Em 1986, 30% das crianças eram infectadas pelo vírus na gestação e felizmente Carla ficou fora dessa estatística.

O retrato é do primeiro verão que Carla, na figura de Frida, passa com sua nova família – tios, prima, avós. Tomou-se o cuidado, inclusive, de escolher uma menina que tivesse uma família fora dos padrões tradicionais – assim, já teria embutido um olhar diferenciado, lapidado pelas experiências da vida. Reconhecimento, afeto e aceitação fizeram parte do processo, e o filme trata os sentimentos com delicadeza e muita naturalidade. Por isso é um filme de observação. Atenção aos olhares, aos gestos, às poucas palavras, às atitudes. Tudo constrói, quando o tempo tem seu tempo de agir e curar. Poesia, sem que para isso precise nos privar do sofrimento. Por isso é poesia.

 

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