Quem torcer o nariz ao saber que o filme tem um monstro, vai perder a chance de sair da materialidade e ir pra outro lugar. Bem mais sutil. Bem mais sensorial. Além de ter uma produção impecável, A Forma da Água fala da conectividade que existe entre pessoas (neste caso, entre seres), que vai além de qualquer explicação.

Entra no filme, confia na sensibilidade da Elisa. Muda, Elisa é a moça da limpeza de uma central governamental, onde são feitas pesquisas secretas em plena Guerra Fria, nos anos 1950. Um ser é mantido em um dos laboratórios, dentro de um tanque e a sinergia entre eles é imediata. Apavorada com a possibilidade de perdê-lo, Elisa (Sally Hawkins, também em Jane Eyre) conta com a ajuda da amiga Zelda (Octavia Spenser, também em A CabanaFruitvalle Station) e do amigo Giles (também em O Visitante) pra por em ação a sua ideia.

Guillermo del Toro levou o prêmio de melhor diretor no Globo de Ouro pelo filme. É, de longe, o que ele fez de melhor. Colina Escarlate é bacana, mas é suspense, com toque de terror – tem outro viés; Círculo de Fogo pertence à outra prateleira – é ficção científica, com monstros que, realmente, são chatos demais. Fico até pensando como é que o diretor chegou nessa linguagem tão refinada de A Forma da Água. Muitas e muitas camadas pra pensar. E sentir.

Elisa não fala, mas se comunica. É essa a grande sacada do filme. Falar de outro jeito, mesmo porque existem conexões que não são, realmente, explicáveis. O convite é para mergulhar nas águas de emoção e encantamento que, literalmente, vão inundar a tela. É profundo – mas só se você não achar ruim que tem monstro, achar que é impossível e ficar preso ao pão-pão-queijo-queijo da vida. Vá além – tem sensações que só o amor é capaz de despertar. É um convite. E a materialização de Guillermo del Toro a esse respeito é, além de muito original, uma poesia. Além de ser belo. Muito belo.

 

 

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