A Casa que Jack Construiu” é o resultado conciso da humanidade sombria que o renomado diretor Lars von Trier tanto gosta de retratar. Mais uma vez em sua carreira, o cineasta opta pela polêmica e por cenas fortes mescladas a metáforas visuais para discutir temas como a arte, o sagrado e o pecado, a violência, a misoginia e a humanidade do indivíduo. Tudo isso misturando de maneira equilibrada gêneros como terror, crime, drama e suspense.

Um dia, durante um encontro fortuito na estrada, o arquiteto Jack (Matt Dillon) mata uma mulher (Uma Thurman). Este evento provoca um prazer inesperado no personagem, que passa a assassinar dezenas de pessoas ao longo de 12 anos. Devido ao descaso das autoridades e à indiferença dos habitantes locais, o criminoso não encontra dificuldade em planejar seus crimes. No presente, Jack escolhe cinco de seus assassinatos para narrar sua história sombria ao ouvinte Virgílio (Bruno Ganz).

A estrutura narrativa é semelhante à de “Ninfomaníaca”, obra mais famosa de von Trier: por meio de flashbacks, o protagonista narra os extravagantes acontecimentos de sua vida para outro personagem, que faz o papel do interlocutor. Além de ser o ouvinte, Virgílio representa também mais dois papéis: a própria consciência do assassino, o que faz do filme um grande processo de confissão; e o guia para o Inferno, onde, após se confessar, Jack deve enfrentar as consequências de seus pecados.

Outro ponto positivo é a atuação de Matt Dillon, um dos atores mais subestimados de sua geração e que, por ser pouco badalado, muitas vezes passa despercebido em meio a Hollywood, apesar de sempre apresentar ótimos trabalhos. Uma Thurman também se destaca nas poucas cenas em que aparece.

A arte é um dos temas principais da narrativa, desde as cenas iniciais que mostram de pianistas virtuosos até a invenção da arquitetura gótica, passando por diversos quadros de séculos passados. Mas é quando Jack assume seu alter-ego como um serial killer em busca de reconhecimento, que se torna ainda mais evidente o pensamento sombrio por trás de toda a história: nesse contexto, a própria violência também é uma forma de arte.

Outro tema de destaque é a misoginia. Contrastando com as discussões sobre desigualdade de gênero, von Trier escolhe um protagonista que, apesar de também matar homens, inconscientemente (ou não) escolhe contar apenas casos em que as vítimas eram mulheres. Quando questionado por Virgílio o porquê dessas escolhas, os problemas de Jack com o sexo oposto ficam expostos. O retrato que ele faz das mulheres, sempre como inferiores, ignorantes, irritantes e facilmente manipuláveis, é bem-sucedido em seu objetivo de incomodar o espectador, até porque representa boa parte da realidade em que vivemos.

Clique aqui e assista a ‘A Casa que Jack Construiu’!

Para entender um pouco mais da relação entre violência e arte que Lars von Trier procura estabelecer, compare uma das cenas finais do filme com o quadro de 1822 “A Barca de Dante”, do pintor francês Eugène Delacroix.

Escrito por